A Dança

A dança: Tudo que é vivo se move, movimento é vida! Dançar é mover-se com consciência, é plasmar no corpo o sentimento de vida. É a mais pura expressão do ser!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

DANÇAR SEM OLHOS

Habitamos em um mundo predominantemente visual. Imagine a importância da visão para o ser vivo que necessita perceber o mundo a fim de interagir com ele e poder se mover. Como se deslocar em segurança por este lugar “estranho”, “inóspito”, “perigoso”, sendo este ser desprovido da principal fonte de percepção humana: a visão? Ser cego é ter a percepção de um mundo borrado, sem contornos nítidos, sem definições. É não poder contar com o recurso da visão para conhecer o mundo no qual se vive. Os olhos são tão importantes para os seres humanos que ao se referir a algo que tem a nossa atenção e cuidado, costuma-se dizer que é a nossa “menina dos olhos”.
E por que existem seres humanos cegos? Alguns com cegueira total e outros com cegueira parcial. Qual o motivo desta diferença? Onde encontrar as explicações para estes fatos? Estas pessoas não são boas o suficiente e receberam um castigo “divino”? Ou é um ser estranho que vem de fora e arranca os olhos e a capacidade de visão dessas pessoas como no conto – “O estranho” – relatado por , no qual “O Homem de Areia é um ser perverso que chega quando as crianças não vão para a cama e joga punhados de areia nos olhos delas, de modo que estes saltam sangrando da cabeça”.
Que ser estranho é este que tem a possibilidade de provocar deficiências, de interferir nas ações dos seres humanos, tornando-os reféns das circunstâncias? É possível, por analogia, compreender este ser estranho, o “Homem de Areia” que arranca os olhos das crianças, como os acidentes e as enfermidades tipo diabetes – que podem ocorrer e provocar cegueira, interferindo na qualidade de vida desses indivíduos.
Existem dois tipos de cegueira: congênita e adquirida. O primeiro tipo se refere às pessoas que já nascem sem o recurso da visão; elas não possuem imagens pré-formadas, inclusive a imagem corporal de si mesmo. O segundo tipo se refere às pessoas que perderam a visão em algum momento da vida por causas diversas; possuem imagens mentais anterior à deficiência. Além disso, a cegueira pode ser total ou parcial; na cegueira parcial, o indivíduo apresenta visão subnormal.
Provavelmente, de todas as deficiências que afetam os seres humanos, a que mais priva o indivíduo do contato com o mundo externo é a deficiência visual, visto que o olho é o maior captador de imagens sensório-motoras. Os “olhos roubados” impossibilitam que esses indivíduos possam perceber e compreender o mundo no qual estão inseridos. Eles necessitam de artefatos que ampliem as suas possibilidades de entender o mundo. Mas, esta deficiência não é algo que veio de fora, de um mundo fantástico, etéreo,  um mundo “povoado de espíritos, demônios e fantasmas”.
Essa deficiência pode estar na formação do ser, nas explicações biológicas, nas doenças adquiridas ou nos acidentes que podem acontecer ao longo da vida;"o medo de ferir ou perder os olhos é um dos mais terríveis temores das crianças. Muitos adultos conservam uma apreensão nesse aspecto e nenhum outro dano físico é mais temido por esses adultos do que um ferimento nos olhos”.   A ansiedade quanto aos próprios olhos e o medo de ficar cego se relacionam ao temor de ser castrado.
O corpo cego, assim como qualquer outro corpo, possui uma história pessoal. Ele é constituído de movimento, pensamento, emoção, razão, sentimentos e sonhos, muitos sonhos. As vias de acesso a estas informações é que são outras, pois eles não utilizam a visão. Afirma que sentimentos e emoções são percepções diretas de nossos estados corporais e constituem um elo essencial entre o corpo e a consciência, estando relacionadas com o processo de tomada de decisão.
O movimento é a nossa primeira forma de linguagem: uma linguagem não verbal estruturada no corpo. Partindo desta idéia, o corpo é a condição primeira para que ocorra o pensamento a partir da articulação entre a coerência e a coesão das ações sensório-motoras.
O corpo testa hipóteses de movimentos e seleciona os mais eficientes. Pelo processo de memória e repetição promove a aprendizagem desses movimentos em uma negociação com o ambiente, organizando a informação em tempo real. Ocorre um mapeamento temporal, a informação que chega ao cérebro se reconfigura a todo o momento pelo acesso às novas informações, facilitando a configuração rápida de imagens. A imagem sensório-motora, necessita de uma pré-alimentação e uma retro-alimentação da informação.
A limitação do indivíduo cego está relacionada à percepção visual; entretanto suas outras fontes de percepção estão intactas e possibilitam a aprendizagem. Aqui a regra válida é que cada indivíduo tenha a possibilidade de explorar o ambiente, buscando novas formas de interação, ampliando suas capacidades multissensoriais para uma aprendizagem significativa, reorganizando os conhecimentos pela interação dos sentidos não comprometidos.
O desenvolvimento da competência sensório-motora ocorre ao longo da vida, não se restringe apenas ao período da infância . Este fato reforça a importância da prática da dança mesmo na vida adulta. Para os indivíduos cegos, esta prática torna-se ainda mais relevante pelas interações espaço/temporais e corporais com os processos mentais. Os processos de assimilação, organização, reorganização e acomodação das experiências vividas pelos indivíduos cegos ocorrem de forma mais lenta do que nos indivíduos normovisuais, entretanto, eles acontecem.

A dança apresenta possibilidades, pois além de trabalhar aspectos que envolvem a construção do pensamento, a criatividade e as idéias de tempo-espaço, melhora a manutenção do equilíbrio e da postura corporal. É necessário entender que as capacidades e habilidades do indivíduo cego não estão limitadas; a organização perceptiva é que se processa de maneira diferente devido à ausência da visão.
Praticar dança permite ao indivíduo cego construir suas próprias idéias de tempo /espaço, de manutenção do equilíbrio pela reorganização postural, a partir da utilização dos outros sentidos, do aparato vestibular e da propriocepção. O indivíduo estabelece seu ritmo próprio de aprendizagem através da experimentação, do contato corporal, do toque, da exploração do espaço e dos sons. Os conhecimentos produzidos nestas experimentações são levados para as atividades da vida diária.
A dança, para o deficiente visual, possibilita a superação de limites impostos pela cegueira, ampliando as possibilidades motoras com a execução de movimentos conscientes. Ela promove a melhoria do equilíbrio e da locomoção; da socialização, da realização pessoal e propicia uma vida ativa; além disso, a dança aumenta a compreensão da noção espaço/temporal e a noção de consciência corporal pela concretização da imagem de si mesmo, podendo ser um espaço de descobertas e consolidação de novos padrões motores que possibilitam novas aprendizagens e a aquisição da autonomia.
A aquisição do movimento em dança pelo indivíduo cego depende das condições oferecidas pelo meio e pelo grau de apropriação que o corpo fizer destas ações pela percepção, estabelecendo relações entre as sensações e os movimentos elaborados. Isso possibilita ao indivíduo prever mentalmente atos motores cada vez mais complexos, sendo o corpo co-participativo na construção desse conhecimento.

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